Azeite de oliva: o que explica a fama de um dos alimentos mais estudados da dieta mediterrânea

Garrafa de azeite extravirgem acompanhada de azeitonas

Durante muito tempo, a gordura foi tratada quase como uma inimiga da alimentação saudável.

A recomendação parecia simples: quanto menos gordura, melhor.

Mas existe uma gordura que ocupa uma posição curiosa nessa história.

Ela é usada há séculos na alimentação de povos do Mediterrâneo, aparece em saladas, legumes, pães e preparações culinárias e, apesar de ser bastante calórica, está associada a um padrão alimentar considerado favorável à saúde cardiovascular.

Estamos falando do azeite de oliva.

A fama não surgiu apenas por causa da tradição.

Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a investigar o que existe por trás dessa relação. E os resultados ajudam a explicar por que o azeite, especialmente quando utilizado no lugar de fontes de gordura saturada, ganhou espaço nas discussões sobre alimentação e saúde.

Mas existe uma diferença importante entre dizer que o azeite faz parte de uma alimentação associada a melhores resultados de saúde e afirmar que simplesmente tomar algumas colheres todos os dias vai proteger alguém contra doenças.

A ciência é mais interessante — e mais complexa — do que isso.


O que há de diferente no azeite?

O azeite é obtido a partir das azeitonas, frutos da oliveira.

Sua composição é dominada por gorduras monoinsaturadas, principalmente o ácido oleico. Também contém outros componentes, incluindo compostos fenólicos, cuja quantidade varia de acordo com o tipo de azeite, processamento, variedade da azeitona e condições de produção.

Azeite de oliva em recipiente de vidro acompanhado de azeitonas

É justamente essa combinação que chama atenção.

A American Heart Association recomenda priorizar fontes de gorduras monoinsaturadas e poli-insaturadas em substituição às gorduras saturadas e trans. Entre os óleos vegetais apontados pela entidade está o azeite de oliva.

Isso ajuda a entender uma das principais ideias por trás do consumo de azeite:

não se trata apenas de adicionar azeite à alimentação, mas também de observar o que ele está substituindo.

Trocar manteiga ou outras fontes mais ricas em gordura saturada por um óleo vegetal rico em gorduras insaturadas pode produzir um efeito nutricional diferente de simplesmente acrescentar mais calorias à dieta.

Essa distinção é fundamental.


Azeite extravirgem é diferente do azeite comum?

Sim.

E essa diferença merece atenção porque muitas vezes os termos aparecem como se fossem sinônimos.

O azeite extravirgem é obtido por processos mecânicos e apresenta critérios específicos de qualidade química e sensorial. Ele também tende a preservar uma quantidade maior de determinados compostos bioativos presentes naturalmente na azeitona.

Entre esses compostos estão os polifenóis.

É justamente nessa parte que a história fica mais interessante.

A gordura monoinsaturada ajuda a explicar o perfil nutricional do azeite, mas os compostos fenólicos são uma das razões pelas quais o azeite extravirgem recebe tanta atenção científica.

Isso não significa que qualquer garrafa de azeite extravirgem tenha exatamente a mesma composição.

A concentração desses compostos pode variar bastante.

Por isso, dizer simplesmente que “todo azeite tem os mesmos benefícios” seria uma simplificação.


Os compostos fenólicos podem ter um papel importante

Os polifenóis presentes no azeite são estudados por suas propriedades biológicas.

Entre os efeitos investigados estão mecanismos relacionados ao estresse oxidativo e ao metabolismo lipídico.

A própria Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) publicou, em 2025, avaliações científicas específicas sobre alegações envolvendo compostos fenólicos naturalmente presentes no azeite e sua relação com colesterol LDL e pressão arterial.

Isso não significa que o azeite seja um medicamento.

A EFSA avalia se determinadas relações entre componentes alimentares e efeitos fisiológicos possuem evidências suficientes para sustentar alegações de saúde.

E esse processo é importante justamente porque impede que qualquer alimento seja apresentado como benéfico com base apenas em propaganda.

No caso do azeite, a discussão científica está longe de ser apenas uma questão de tradição.


A grande pista veio da dieta mediterrânea

Para entender a reputação do azeite, é preciso olhar para um padrão alimentar maior.

A chamada dieta mediterrânea tradicionalmente apresenta grande presença de vegetais, frutas, legumes, castanhas, sementes, cereais e azeite de oliva, além de consumo moderado de peixe e menor presença de carnes vermelhas e alimentos ultraprocessados.

Azeite, azeitonas, vegetais e outros alimentos da dieta mediterrânea

Isso cria um problema para quem tenta descobrir o efeito de um único alimento.

Se pessoas que consomem bastante azeite também comem mais vegetais, frutas, legumes e castanhas, praticam outros hábitos saudáveis e consomem menos determinados alimentos, como separar o efeito do azeite de todo o restante?

É justamente por isso que alguns estudos chamaram tanta atenção.

Um dos mais conhecidos é o PREDIMED, realizado na Espanha.


O que o estudo PREDIMED realmente mostrou?

O PREDIMED acompanhou 7.447 adultos com alto risco cardiovascular, mas que não tinham doença cardiovascular estabelecida no início do estudo.

Os participantes foram distribuídos entre três estratégias alimentares:

  • dieta mediterrânea suplementada com azeite extravirgem;
  • dieta mediterrânea suplementada com castanhas;
  • dieta de controle com orientação para reduzir a ingestão de gordura.

Na análise republicada em 2018, o grupo que recebeu a dieta mediterrânea suplementada com azeite extravirgem apresentou menos eventos cardiovasculares importantes do que o grupo de controle. O desfecho combinava infarto, acidente vascular cerebral e morte por causas cardiovasculares.

Mas existe uma ressalva importante.

O estudo original publicado em 2013 precisou ser retratado e republicado depois que foram identificados problemas relacionados ao processo de randomização em alguns centros. A versão de 2018 apresentou uma análise revisada.

Essa informação não diminui automaticamente o valor do estudo.

Na verdade, ela mostra por que a transparência científica é tão importante.

O resultado revisado continuou apontando para uma associação favorável entre o padrão mediterrâneo suplementado com azeite extravirgem e o risco cardiovascular, mas os resultados precisam ser interpretados dentro do contexto do estudo.

Ou seja:

não é correto transformar o PREDIMED na afirmação de que “azeite evita infarto”.

O que o estudo avaliou foi um padrão alimentar completo, no qual o azeite extravirgem era uma das principais características.


Então o azeite protege o coração?

A resposta mais responsável é:

há boas evidências de que o consumo de azeite, especialmente como parte de um padrão alimentar saudável e em substituição a fontes de gordura menos favoráveis, está associado a benefícios cardiovasculares.

Mas isso é diferente de dizer que o azeite sozinho protege o coração.

Uma revisão publicada em 2025 que reuniu revisões sistemáticas de ensaios clínicos e estudos observacionais encontrou associações favoráveis entre o consumo de azeite e diferentes desfechos, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e mortalidade por todas as causas. Os autores, porém, analisaram diferentes tipos de evidência, que possuem limitações distintas.

Essa diferença entre associação e causalidade é essencial.

Se um estudo observacional encontra menor risco de determinada doença entre pessoas que consomem mais azeite, isso não prova sozinho que o azeite foi responsável pelo resultado.

Por outro lado, quando diferentes linhas de evidência apontam na mesma direção, a hipótese se torna mais interessante para a ciência.


E o colesterol?

Aqui existe uma explicação bastante plausível.

Quando gorduras insaturadas substituem gorduras saturadas na alimentação, o perfil lipídico pode ser favorecido.

A American Heart Association recomenda justamente substituir fontes de gordura saturada e trans por alimentos ricos em gorduras monoinsaturadas e poli-insaturadas, uma estratégia que pode ajudar a reduzir o colesterol LDL e o risco cardiovascular.

O azeite se encaixa nessa estratégia.

Além disso, os compostos fenólicos do azeite vêm sendo estudados separadamente.

Em 2025, a EFSA publicou uma avaliação específica sobre compostos fenólicos naturalmente presentes no azeite e sua relação com redução do LDL e da pressão arterial, fatores relacionados ao risco de doença coronariana.

Isso ajuda a explicar por que o azeite extravirgem costuma receber atenção especial.

Não é apenas uma questão de quantidade de gordura.

É também uma questão de qual tipo de gordura e quais outros compostos acompanham essa gordura.


Azeite engorda?

Sim, se consumido em excesso, pode contribuir para o aumento da ingestão calórica.

Esse ponto costuma desaparecer quando o azeite é apresentado como um “alimento saudável”.

Ser saudável não significa ser isento de calorias.

O azeite é uma fonte concentrada de gordura e, portanto, possui alta densidade energética.

Isso não transforma o alimento em algo ruim.

Significa apenas que quantidade continua importando.

Uma pessoa que substitui manteiga por azeite dentro de uma alimentação equilibrada está fazendo uma mudança diferente daquela de alguém que simplesmente acrescenta grandes quantidades de azeite à dieta sem reduzir nenhuma outra fonte de calorias.

A qualidade da alimentação precisa ser analisada como um conjunto.


Azeite extravirgem ou azeite comum: qual escolher?

Se a intenção é obter também os compostos fenólicos associados ao azeite menos processado, o extravirgem costuma ser a escolha mais interessante.

Mas isso não significa que outros tipos de azeite sejam automaticamente ruins.

O ponto principal continua sendo o contexto alimentar.

Para uso cotidiano, o consumidor pode observar fatores como:

  • categoria do produto;
  • procedência;
  • integridade da embalagem;
  • data de validade;
  • condições de armazenamento;
  • informações presentes no rótulo.

No caso do extravirgem, também vale lembrar que qualidade sensorial e composição podem variar.

Por isso, preço sozinho não é uma medida perfeita de qualidade.


O azeite pode ser usado para cozinhar?

Sim.

A ideia de que azeite não deve ser utilizado para cozinhar por causa do aquecimento é muito mais complicada do que uma simples regra de “pode” ou “não pode”.

O comportamento de um óleo durante o aquecimento depende de fatores como temperatura, tempo, composição e método de preparo.

No uso doméstico habitual, o azeite pode fazer parte de diferentes preparações culinárias.

Além disso, uma das grandes vantagens práticas do alimento é justamente sua versatilidade.

Ele pode ser utilizado:

  • em saladas;
  • em vegetais;
  • em preparações culinárias;
  • para finalizar pratos;
  • em marinadas;
  • em molhos.

O mais importante é evitar transformar o alimento em uma promessa milagrosa.


O que torna o azeite tão diferente de outras gorduras?

Talvez a resposta esteja menos no azeite isoladamente e mais na combinação de características.

Ele fornece principalmente gordura monoinsaturada.

Pode conter compostos fenólicos.

É tradicionalmente utilizado em um padrão alimentar rico em vegetais e alimentos minimamente processados.

E pode substituir fontes de gordura com maior proporção de gordura saturada.

Essa última parte é especialmente importante.

Imagine duas situações.

Na primeira, uma pessoa mantém toda a alimentação igual e começa a acrescentar várias colheres de azeite diariamente.

Na segunda, ela substitui parte da manteiga ou de outras fontes de gordura saturada por azeite e, ao mesmo tempo, mantém uma alimentação rica em vegetais, legumes, frutas, grãos e castanhas.

As duas situações envolvem azeite.

Mas nutricionalmente não são a mesma coisa.

É o contexto que muda a história.


E os antioxidantes?

O azeite extravirgem contém diversos compostos fenólicos que apresentam atividade antioxidante em estudos laboratoriais.

Mas existe uma armadilha comum quando se fala sobre antioxidantes.

A presença de um composto antioxidante em um alimento não significa automaticamente que comer aquele alimento vai prevenir uma doença específica.

O organismo possui sistemas complexos de defesa contra processos oxidativos.

Além disso, os efeitos observados em laboratório nem sempre se traduzem diretamente em benefícios clínicos em seres humanos.

Por isso, é mais adequado dizer que os compostos fenólicos do azeite são biologicamente ativos e cientificamente estudados, em vez de afirmar que o azeite simplesmente “combate os radicais livres” e, por consequência, previne doenças.

A segunda afirmação é muito mais forte do que as evidências permitem.


Existe uma quantidade ideal de azeite?

Não existe uma quantidade universal que possa ser considerada ideal para todas as pessoas.

As necessidades energéticas variam.

O restante da alimentação também varia.

Uma pessoa pode consumir azeite diariamente dentro de uma dieta equilibrada, enquanto outra pode precisar ajustar a quantidade de acordo com seus objetivos nutricionais.

O mais importante é pensar em substituição e equilíbrio, não em megadoses.

Também não há razão para transformar o azeite em suplemento.

Ele é um alimento.

E seu papel mais interessante aparece quando ocupa seu lugar dentro de uma alimentação de boa qualidade.


O que a ciência realmente permite afirmar?

Depois de décadas de pesquisas, algumas conclusões são mais seguras do que outras.

O que possui boa sustentação

O azeite é uma fonte importante de gordura monoinsaturada.

A substituição de gorduras saturadas por gorduras insaturadas é recomendada por entidades cardiovasculares.

O azeite faz parte do padrão alimentar mediterrâneo, que possui evidências favoráveis para a saúde cardiovascular. O estudo PREDIMED revisado encontrou menor ocorrência de eventos cardiovasculares importantes nos grupos de dieta mediterrânea suplementada com azeite extravirgem ou castanhas em comparação ao controle.

O azeite extravirgem contém compostos fenólicos que continuam sendo investigados por seus efeitos biológicos.

O que exige cautela

Não é correto afirmar que tomar azeite isoladamente previne infarto, câncer, diabetes ou outras doenças.

Também não é correto assumir que quanto mais azeite uma pessoa consumir, maiores serão os benefícios.

E estudos sobre um padrão alimentar não devem ser transformados automaticamente em provas de que um único ingrediente é responsável por todos os efeitos observados.


Afinal, vale a pena incluir azeite na alimentação?

Para a maioria das pessoas, o azeite pode ser uma excelente opção de gordura para a alimentação cotidiana, especialmente quando utilizado para substituir fontes de gordura saturada e dentro de um padrão alimentar equilibrado.

Seu destaque não depende de uma única propriedade.

É a combinação entre seu perfil de gorduras, seus compostos bioativos e sua presença em um dos padrões alimentares mais estudados do mundo que torna o alimento tão interessante.

E talvez essa seja a maior lição escondida por trás da fama do azeite.

Durante muito tempo, a discussão sobre alimentação saudável tentou encontrar um alimento capaz de resolver tudo.

A ciência aponta para outra direção.

Não existe uma colher de azeite capaz de compensar uma alimentação ruim.

Mas existe uma diferença enorme entre consumir gordura de diferentes fontes — e algumas escolhas podem ser claramente mais favoráveis do que outras.

O azeite é uma dessas escolhas.

Azeitonas e azeite de oliva sobre mesa de madeira

Não porque seja um alimento milagroso.

Mas porque, quando ocupa o lugar certo dentro de uma alimentação de qualidade, ele reúne características que fazem sentido tanto do ponto de vista nutricional quanto científico.

E é justamente isso que explica por que, tantos anos depois, aquela pequena garrafa de azeite continua despertando tanto interesse entre pesquisadores.


Perguntas frequentes

O azeite de oliva faz bem para a saúde?

O azeite pode fazer parte de uma alimentação saudável, principalmente por ser rico em gordura monoinsaturada. A American Heart Association recomenda substituir gorduras saturadas e trans por fontes de gorduras insaturadas, incluindo o azeite de oliva.

Qual é melhor: azeite extravirgem ou azeite comum?

O azeite extravirgem é menos processado e pode preservar maiores quantidades de compostos fenólicos. Porém, a escolha também depende da finalidade, qualidade do produto e contexto geral da alimentação.

O azeite ajuda a proteger o coração?

Evidências associam o consumo de azeite e, especialmente, padrões alimentares mediterrâneos que o incluem, a melhores resultados cardiovasculares. O PREDIMED encontrou menor ocorrência de eventos cardiovasculares importantes entre participantes de alto risco que seguiram uma dieta mediterrânea suplementada com azeite extravirgem em comparação ao grupo de controle.

O azeite aumenta o colesterol?

O azeite é rico em gordura monoinsaturada. Quando gorduras insaturadas substituem gorduras saturadas, isso pode contribuir para um perfil de colesterol mais favorável.

Azeite engorda?

O azeite fornece muitas calorias porque é uma fonte concentrada de gordura. Portanto, o consumo excessivo pode aumentar a ingestão energética. Seu benefício nutricional não significa que deva ser consumido sem considerar a quantidade.

Posso cozinhar com azeite?

O azeite pode ser utilizado em preparações culinárias. O comportamento durante o aquecimento depende da temperatura, tempo e método de preparo, portanto não é adequado resumir a questão a uma regra absoluta de que azeite “não pode ser aquecido”.

Os antioxidantes do azeite previnem doenças?

O azeite extravirgem contém compostos fenólicos com atividade biológica, mas não é correto transformar essa característica em uma promessa de prevenção de doenças. Os efeitos observados em estudos laboratoriais e biomarcadores não equivalem automaticamente à prevenção clínica de uma doença.


Fontes

Nota editorial: este artigo diferencia evidência observacional, ensaios clínicos e interpretações nutricionais para evitar apresentar associações como causalidade. O estudo PREDIMED é citado na versão republicada de 2018, não na publicação original de 2013, que foi retratada.

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