Canela faz bem? O que a ciência realmente descobriu sobre esse tempero

Canela em pau e em pó utilizada como tempero

Durante séculos, a canela foi muito mais do que um tempero.

Ela já foi usada na culinária, na medicina tradicional e chegou a ser considerada um produto de grande valor comercial. Hoje, porém, sua fama ganhou uma nova dimensão: na internet, a canela aparece associada ao controle da glicose, emagrecimento, metabolismo e até à prevenção de doenças.

Mas existe um problema nessa história.

Nem tudo o que se fala sobre a canela foi demonstrado em seres humanos.

A pesquisa científica realmente encontrou resultados interessantes. Estudos clínicos e revisões sistemáticas investigam principalmente seus possíveis efeitos sobre a glicemia e outros marcadores metabólicos. Uma revisão publicada em 2024, por exemplo, reuniu 28 ensaios clínicos randomizados com 3.054 pessoas com diabetes tipo 2 e encontrou reduções em alguns marcadores metabólicos entre os participantes que receberam suplementação de canela.

Ao mesmo tempo, os próprios resultados apresentam uma grande variação entre os estudos.

E o National Center for Complementary and Integrative Health (NCCIH), dos Estados Unidos, afirma que as evidências disponíveis ainda não permitem concluir claramente que a suplementação de canela seja útil para tratar diabetes ou promover perda de peso.

Existe ainda outra questão que costuma passar despercebida:

nem toda canela é igual.

A canela-cássia pode conter quantidades muito maiores de uma substância chamada cumarina do que a canela-do-Ceilão. Em consumo elevado e prolongado, essa diferença pode ser relevante para a segurança, principalmente em pessoas mais sensíveis, como aquelas com doença hepática.

Então, antes de colocar grandes quantidades de canela no café acreditando que encontrou um “remédio natural”, vale entender o que a ciência realmente sabe.

O que existe dentro da canela?

A canela é obtida da casca seca de árvores do gênero Cinnamomum. Entre as variedades conhecidas estão a canela-do-Ceilão, associada à espécie Cinnamomum verum, e diferentes tipos de canela-cássia.

Essa diferença não é apenas uma questão de sabor.

A composição química também muda.

A canela contém diversos compostos responsáveis pelo aroma e sabor característicos, além de substâncias bioativas. Porém, a quantidade e a composição desses componentes dependem da espécie utilizada e de outras características do produto.

Isso ajuda a explicar por que os estudos científicos nem sempre chegam às mesmas conclusões.

Uma pesquisa pode utilizar canela em pó, outra pode usar um extrato concentrado e outra pode investigar uma espécie diferente.

Portanto, quando alguém diz simplesmente que “a ciência provou que a canela faz isso”, é preciso perguntar:

qual canela, em qual quantidade e em qual contexto?

Essa pergunta muda bastante a interpretação dos resultados.

A canela pode ajudar a controlar a glicose?

Essa é provavelmente a área mais estudada quando o assunto é canela e saúde.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 analisou 28 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 3.054 pessoas com diabetes tipo 2.

Os pesquisadores encontraram reduções estatisticamente significativas na glicemia de jejum, glicemia pós-prandial, hemoglobina glicada e HOMA-IR entre os grupos que receberam suplementação de canela e os grupos de controle.

Outra revisão sistemática, publicada em 2024, também encontrou resultados favoráveis em alguns marcadores de controle glicêmico após analisar 24 ensaios clínicos.

À primeira vista, isso parece resolver a questão.

Mas existe uma parte importante da história.

Na revisão com 28 ensaios, a heterogeneidade foi muito alta para alguns dos principais resultados. Em outras palavras, os estudos apresentaram diferenças consideráveis entre si.

Isso pode acontecer por diversos motivos, incluindo diferenças na quantidade utilizada, duração do tratamento, formulação da canela e características dos participantes.

Por isso, os resultados são promissores, mas não equivalem à demonstração de que a canela seja um tratamento estabelecido para diabetes.

O próprio NCCIH considera que ainda não está claro se a suplementação de canela é útil para diabetes.

Essa diferença entre “há sinais de benefício” e “há um tratamento comprovado” é fundamental.

Canela pode substituir o tratamento do diabetes?

Não.

Mesmo que determinados estudos encontrem efeitos sobre a glicemia, isso não significa que a canela possa substituir medicamentos, alimentação adequada, atividade física ou acompanhamento profissional.

Existe ainda outro detalhe importante: muitos estudos que investigam possíveis efeitos metabólicos utilizam suplementos ou preparações controladas, e não simplesmente a pequena quantidade de canela usada normalmente para temperar uma refeição.

Por isso, não é correto pegar o resultado de um ensaio clínico com uma dose específica e concluir que uma pitada de canela no café produzirá exatamente o mesmo efeito.

O NCCIH também alerta que pessoas que utilizam medicamentos para diabetes devem conversar com seus profissionais de saúde antes de utilizar suplementos de canela, porque produtos à base de ervas podem interagir com medicamentos.

E o colesterol?

A relação entre canela e colesterol também já foi investigada.

Algumas pesquisas encontraram alterações favoráveis em determinados marcadores metabólicos, mas os resultados não são suficientemente consistentes para afirmar simplesmente que “canela reduz o colesterol”.

A revisão de 2024 que analisou 28 ensaios encontrou, em determinados subgrupos, reduções de colesterol total, LDL e triglicerídeos associadas à suplementação em cápsulas. Porém, os resultados apresentaram heterogeneidade elevada.

Isso significa que existe uma área legítima de investigação, mas ainda não uma conclusão simples que possa ser aplicada a qualquer pessoa.

A melhor maneira de apresentar o conhecimento atual é dizer que a canela está sendo estudada por seus possíveis efeitos sobre fatores de risco metabólicos, e não que ela seja comprovadamente capaz de prevenir doenças cardiovasculares.

Canela emagrece?

Essa talvez seja uma das promessas mais populares relacionadas ao tempero.

Mas a evidência não permite uma conclusão tão fácil.

A pesquisa sobre canela e peso corporal apresenta resultados variados. Algumas análises encontraram alterações em determinadas medidas metabólicas ou corporais, mas isso não significa que a canela seja um alimento emagrecedor.

O próprio NCCIH afirma que ainda não está claro se a suplementação de canela ajuda na perda de peso.

Isso é importante porque existe uma diferença enorme entre:

“um estudo encontrou uma alteração em determinado marcador”

e

“canela acelera o metabolismo e faz emagrecer”.

A segunda afirmação vai muito além do que as evidências permitem dizer.

Se uma pessoa acrescentar grandes quantidades de canela a uma alimentação desequilibrada esperando que o tempero compense o excesso de calorias, não existe evidência científica que sustente essa estratégia.

Por que a canela ganhou fama de “acelerar o metabolismo”?

Parte dessa reputação provavelmente está relacionada à combinação de estudos laboratoriais, pesquisas em animais e resultados preliminares em seres humanos.

Determinados compostos presentes na canela demonstram atividades biológicas interessantes em condições experimentais.

Mas existe uma diferença fundamental entre observar um mecanismo em laboratório e demonstrar um benefício clínico em seres humanos.

Para que uma substância seja considerada eficaz para determinada condição, não basta existir uma explicação plausível para seu funcionamento.

É preciso demonstrar que ela realmente produz um benefício relevante e consistente nas pessoas.

É justamente nesse ponto que muitas promessas relacionadas à canela vão além da evidência disponível.

Existe uma diferença importante entre canela-cássia e canela-do-Ceilão

Aqui está uma das informações mais importantes sobre o consumo de canela — e ela não tem relação com emagrecimento.

Diferença visual entre canela-do-Ceilão e canela-indonésia
Foto: Antti Vähä-Sipilä / Wikimedia Commons — CC BY-SA 1.0

A canela-cássia pode apresentar concentrações significativamente maiores de cumarina do que a canela-do-Ceilão.

A cumarina é uma substância naturalmente encontrada em algumas plantas.

Em determinadas circunstâncias, a exposição elevada pode afetar o fígado, especialmente em pessoas sensíveis. Por isso, o consumo frequente de grandes quantidades de produtos ricos em cumarina merece atenção.

O Instituto Federal Alemão de Avaliação de Risco (BfR) utiliza como referência uma ingestão diária tolerável de 0,1 mg de cumarina por quilograma de peso corporal por dia, valor também adotado pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos.

Isso não significa que consumir canela ocasionalmente seja perigoso.

Na alimentação cotidiana, pequenas quantidades utilizadas como tempero são consideradas seguras para a maioria das pessoas.

A preocupação aumenta principalmente quando alguém passa a consumir grandes quantidades regularmente ou utiliza suplementos concentrados.

Como saber qual tipo de canela você está comprando?

Quando a canela está em pó, diferenciar visualmente as variedades pode ser difícil.

Canela em pau mostrando a estrutura da casca
Foto: Sivaanbrook / Wikimedia Commons — CC BY-SA

Por isso, observar a identificação no rótulo é uma das formas mais práticas de saber qual produto está sendo comprado.

A canela-do-Ceilão é associada à espécie Cinnamomum verum, enquanto a canela-cássia engloba variedades como Cinnamomum aromaticum.

A principal diferença relacionada à segurança é justamente o teor de cumarina.

A canela-do-Ceilão apresenta apenas pequenas quantidades, enquanto a cássia pode conter níveis consideravelmente maiores.

Isso não significa que a canela-cássia seja um alimento “ruim”.

Ela é utilizada normalmente como especiaria e, em quantidades culinárias habituais, é considerada segura para a maioria das pessoas.

A questão está no excesso e na frequência de consumo.

E os suplementos de canela?

É aqui que a diferença entre alimento e suplemento se torna especialmente importante.

Utilizar uma pequena quantidade de canela para dar sabor a uma preparação é uma coisa.

Tomar diariamente um produto concentrado é outra.

O NCCIH destaca que alguns produtos de canela podem não deixar claro qual espécie foi utilizada e que diferentes espécies possuem diferenças importantes na composição química.

Isso é particularmente relevante para a cumarina.

Pessoas com doença hepática devem ter atenção especial ao consumo elevado de canela-cássia, já que grandes quantidades podem representar um risco maior nesse grupo.

Além disso, pessoas que utilizam medicamentos regularmente devem conversar com um profissional de saúde antes de iniciar suplementos de canela.

Natural não significa automaticamente seguro em qualquer dose.

Canela faz mal?

Nas quantidades normalmente utilizadas como tempero ou aromatizante, a canela é considerada segura para a maioria das pessoas.

Quando utilizada em grandes quantidades ou por períodos prolongados, podem ocorrer efeitos adversos, incluindo problemas gastrointestinais e reações alérgicas.

A exposição à cumarina também merece atenção, especialmente quando se trata de canela-cássia e consumo elevado.

Existe ainda uma prática que nunca deve ser confundida com o consumo alimentar:

o chamado “cinnamon challenge”.

Ingerir grandes quantidades de canela em pó deliberadamente pode provocar problemas graves, inclusive pela aspiração do pó para as vias respiratórias. O NCCIH recomenda não participar dessa prática.

Qual é a melhor maneira de consumir canela?

Para a maioria das pessoas, a maneira mais simples continua sendo também a mais sensata:

usar a canela como tempero.

Ela pode ser adicionada a frutas, aveia, bebidas e outras preparações culinárias, contribuindo com aroma e sabor sem precisar ser tratada como suplemento.

Canela utilizada em uma preparação com aveia e maçã

Esse uso também pode ter uma vantagem indireta.

Como a canela possui sabor marcante, algumas pessoas podem utilizá-la para tornar determinadas preparações mais agradáveis sem depender tanto de açúcar.

Nesse caso, o benefício não seria porque a canela “queima gordura” ou “cura diabetes”.

Seria algo muito mais simples:

usar um tempero saboroso para melhorar uma preparação sem necessariamente acrescentar mais açúcar.

E essa é uma maneira muito mais realista de encaixar a canela em uma alimentação equilibrada.

Afinal, canela faz bem?

A resposta depende do que estamos chamando de “fazer bem”.

A canela possui compostos biologicamente ativos e existem pesquisas que apontam possíveis efeitos sobre a glicemia e outros marcadores metabólicos, principalmente em estudos de suplementação realizados com pessoas com diabetes tipo 2.

Mas os resultados não são uniformes.

As pesquisas utilizam diferentes espécies, doses, formulações e períodos de intervenção, e algumas análises apresentam heterogeneidade elevada.

Por isso, o NCCIH continua afirmando que as evidências disponíveis não sustentam claramente o uso da canela para tratar qualquer condição de saúde.

Existe ainda a questão da cumarina, principalmente na canela-cássia, que torna o consumo excessivo e prolongado uma preocupação diferente daquela associada ao uso culinário comum.

Então, talvez a melhor conclusão seja menos espetacular — e justamente por isso mais útil.

A canela é um tempero com uma composição interessante e potencial biológico que continua sendo estudado.

Mas isso não faz dela um medicamento.

Ela não deve substituir o tratamento do diabetes, não pode ser considerada uma estratégia comprovada para emagrecimento e não deve ser consumida em grandes quantidades simplesmente porque é “natural”.

Seu lugar mais seguro e realista continua sendo aquele que ela ocupa há séculos:

um tempero capaz de transformar o sabor de uma comida sem precisar ser transformado em uma promessa milagrosa.


Perguntas frequentes

Canela ajuda a controlar a glicose?

Alguns ensaios clínicos e revisões sistemáticas encontraram reduções em determinados marcadores de controle glicêmico após a suplementação de canela, especialmente em pessoas com diabetes tipo 2. Porém, os estudos apresentam diferenças importantes entre si e as evidências ainda não são suficientes para considerar a canela um tratamento estabelecido.

Canela emagrece?

Não há evidências suficientes para afirmar que a canela seja um alimento emagrecedor. O NCCIH considera incerto se a suplementação de canela ajuda na perda de peso.

Canela pode substituir remédios para diabetes?

Não. Mesmo quando estudos encontram alterações na glicemia, isso não significa que a canela possa substituir medicamentos ou o acompanhamento médico.

Qual é a diferença entre canela-cássia e canela-do-Ceilão?

A principal diferença relacionada à segurança está no teor de cumarina. A canela-cássia normalmente contém muito mais cumarina, enquanto a canela-do-Ceilão apresenta apenas pequenas quantidades.

Canela tem cumarina?

Sim. A quantidade varia de acordo com a espécie. A canela-cássia pode apresentar concentrações elevadas, enquanto a canela-do-Ceilão contém níveis muito menores.

Consumir canela todos os dias faz mal?

Pequenas quantidades utilizadas normalmente como tempero são consideradas seguras para a maioria das pessoas. O cuidado aumenta quando grandes quantidades são consumidas regularmente, especialmente no caso da canela-cássia ou de suplementos concentrados.

Qual canela tem menos cumarina?

A canela-do-Ceilão, associada à espécie Cinnamomum verum, apresenta níveis muito menores de cumarina do que a canela-cássia.

Canela baixa o colesterol?

Alguns estudos encontraram alterações favoráveis em determinados marcadores lipídicos, mas os resultados variam. Uma revisão de 2024 encontrou efeitos favoráveis em alguns subgrupos, porém também observou elevada heterogeneidade entre os estudos.

Quem tem problema no fígado deve ter cuidado com canela?

Sim. O consumo elevado de canela-cássia pode aumentar a exposição à cumarina, substância que pode afetar o fígado em pessoas sensíveis. Pessoas com doença hepática devem conversar com um profissional de saúde antes de utilizar grandes quantidades ou suplementos de canela.


Conclusão

A canela ganhou fama como um dos temperos mais “poderosos” da alimentação.

Mas, quando a ciência entra na história, a resposta fica menos simples.

Existem estudos que encontraram efeitos interessantes sobre glicemia e outros marcadores metabólicos, especialmente em pessoas com diabetes tipo 2 submetidas à suplementação.

Ao mesmo tempo, as pesquisas apresentam diferenças importantes entre doses, espécies, preparações e duração dos estudos.

Isso impede que resultados promissores sejam transformados automaticamente em recomendações médicas.

E existe uma segunda questão que merece atenção: a quantidade de cumarina varia bastante entre os tipos de canela, especialmente entre a cássia e a canela-do-Ceilão.

Por isso, a maneira mais sensata de olhar para a canela não é como um remédio escondido na cozinha.

É como um tempero interessante, que pode fazer parte de uma alimentação equilibrada e cuja possível relação com a saúde continua sendo estudada.

A ciência ainda está tentando descobrir até onde seus efeitos realmente chegam.

Mas uma coisa já está clara:

a canela é interessante — só não precisa ser milagrosa para continuar sendo um ótimo tempero.

Fontes

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